Miuzela: Lugar de Regresso
É certo que os portugueses não estão uniformemente distribuídos pelo país. A densidade populacional mostra que o povo prefere o litoral — talvez uma tendência comum em todo o mundo — revelando algo da psicologia do ser humano em relação ao lugar que habita. Há séculos, talvez desde as origens da humanidade, existe uma preferência pelo mar e, na sua ausência, pelo rio.
O êxodo que ocorreu do interior do país para o exterior, lá por volta da década de 60 do século passado, por necessidade e em busca de uma vida melhor — por vezes até para o estrangeiro — está no sangue do ser português, parece inscrita no código genético lusitano. Ir pelo mundo fora para descobrir o que há para lá do horizonte e, talvez nessa aventura, trazer uma vida melhor. Mas o certo é que, como já cantava António Variações, “eu só quero ir aonde eu não vou”.
A vida obriga-nos a ir estudar ou trabalhar para longe das nossas origens, para longe da nossa tribo; fazer-nos à vida, dizem-nos. Ou talvez seja apenas o nosso instinto mais íntimo. Seja como for, a mente nem sempre vagueia junto de nós. Onde o corpo está fisicamente, a mente está onde gostaria que o corpo estivesse.
É por isso que sempre disse, sempre digo e sempre direi: a Miuzela não é para todos, embora acolha toda a gente de braços abertos, é sobretudo para as nossas mentes, que percorrem saudosas as memórias da meninice — as festas de verão, as ruas estreitas da baixa, as famílias e as amizades, as idas ao Côa e as vindas do Côa (sim, porque o rio é, em si mesmo, um acontecimento). E não sei que mais, porque é demais enumerar.
A desertificação do interior é uma realidade que não podemos ignorar. Como será a Raia daqui a 20 anos? Com a redução da população e a sua preferência pelo litoral, de que será feito o interior? Será feito de abandono, a menos que as mentes que cá vagueiam chamem de volta os seus corpos.
Diante da ameaça do esquecimento e do vazio que paira sobre a Raia e o interior desertificado, vejo que uma solução para o abandono físico não necessita ser pela economia industrial e demais desenvolvimento económico — para isso “só” é preciso vontade política do governo central —, mas por um retorno à interioridade. E não falo da interioridade geográfica, mas a de cada um. O interior geográfico do país possui o potencial de se converter no interior espiritual do indivíduo.
Acredito que o futuro destas terras despovoadas reside na sua capacidade de oferecer silêncio e abrigo, transformando-se num lugar para recuperar da vida, cansada da dispersão do mundo, e que decide finalmente regressar a casa para ser Miuzela novamente. É um ciclo que se poderá fechar: a partida necessária dá lugar ao regresso essencial, onde a mente chama o corpo para o repouso final no berço da sua identidade.
É nisso que acredito: num revivalismo sénior, eventualmente; num espaço acolhedor para quem quiser desfrutar a idade da reforma; num interior de Portugal virado para a interioridade de cada um. Será, ao fim e ao cabo, um retiro da mente da mente — da alma.
Manuel Agrião